Avenida das Américas (Carlos André Ferreira)

Avenida das Américas (Carlos André Ferreira)

O que sabemos sobre a América Central, nossa vizinha de raízes indígenas e de língua hermana? Para tentar conhecer melhor esses países acima da linha do Equador, o autor do livro equipa a sua bike e coloca o pé na estrada.

Conforme vai compondo a sua rota, Carlos André Ferreira traça reflexões sobre a situação social dos lugares por onde passa, inclusive tecendo paralelos com o Brasil. E, como bom viajante, mergulha nas culturas locais, conversa com os nativos, tenta viver ao máximo a sua experiência, acompanhado sempre por sua magrela.

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Este é um relato de viagem de tempos anteriores às selfies; é interessante para entrar em contato com um conceito de viagem que vai muito além do turismo fácil. Não se trata de colocar fotografias no álbum, mas sim de colecionar vivências, que nos modificam profundamente.

Para brindar sua coragem e aventura, o autor cria este livro de memórias – uma inspiração para quem também quer seguir pela Avenida das Américas.

Trechos:

“Estou me aproximando da vivência essencial, a cama é em qualquer chão, me alimentar é em qualquer prato, o trabalho é estar em movimento. Portanto, nada de peso nos alforjes, o importante é estar solto. Eu sabia que uma hora ou outra ia ter que diminuir o peso, quanto mais leve mais livre.”

“Uma viagem solitária transforma o protagonista em um bom ‘leitor de pessoas’; observar é minha atividade número um, não só a paisagem e o rumo da história, como a manifestação da personalidade, as intenções e até a índole através do gestual, da entonação, das palavras que a pessoa escolhe e de como as arruma na conversa.”

“Tentar explicar saudade é difícil; é um sentimento que fica ali dentro roendo, vez por outra aperta o coração. Saudade é que nem raiz de dente exposta: quando bate um doce, dói à beça. Saudade amplia o amor pelos seu país, pelas suas coisas, as pessoas, ensina a dar mais valor.”


“Nas capitais, é necessário dobrar a atenção. Capital é onde está o dinheiro, e onde está o dinheiro estão os que correm atrás do dinheiro, lícita ou ilicitamente. Atenção redobrada para não acabar tendo que preencher documentos não em um Consulado, mas sim em alguma delegacia. Exercício de observação.”

“Dito era um professor de fato, dos que ensinam mais com a pergunta que com a resposta, dos que fazem pensar. Em sua primeira aula, entrou calado carregando uma maletinha, colocou-a sobre a mesa e escreveu no quadro sem dar maiores explicações: ‘Então Alice perguntou ao gato: Para onde leva este caminho? Foi o que respondeu o gato: Depende de aonde você quer chegar.'”

“Falando em limpeza, se é difícil tomar banho todos os dias, imagine lavar as roupas! Um luxo permitido poucas vezes até aquele momento. Eu alternava a roupa que usava para pedalar diariamente com outras que, num rodízio, trocava diariamente. Carregava pouco material; uma viagem de bicicleta leva uma pessoa a uma vida básica. As prioridades mudam, necessidades que pensamos serem absolutas perdem força. Perdemos em conforto, ganhamos em liberdade. Trocar de roupa é uma contingência e tomar banho uma realidade esporádica.”

“Isso de achar que nunca vai ocorrer nada com a gente às vezes nos faz tomar decisões estúpidas.”

“Uma viagem ensina muito. Aliás, no meu entender, há uma diferença entre viajar e o turismo. A expressão ‘coisa pra turista ver’ define melhor o que eu quero dizer. Este tipo de viagem tende a colocar o indivíduo apenas como passivo espectador, muitas vezes de situações preparadas. Você vai à Europa, aí tem que correr até a Torre de Pisa, foto. Fontana de Trevi para atirar uma moeda, foto. Daí corre para dar uma olhadinha no Coliseu, foto. Depois voa para ver o Big Ben, fazer compras na loja da moda, comer no restaurante famoso, fazer uma gracinha com o guarda do Palácio de Buckingham, foto. Um monte de quesitos que não pode deixar de fazer. Cumprem-se tarefas.

Situações pré-fabricadas me incomodam. Claro, existem pessoas que curtem esse estilo, querem apenas ir aonde todos vão. Respeito a posição, mas acho que o Viajar oferece uma oportunidade de aprendizado que não pode ser esquecida. Não precisa escalar o Everest, navegar os oceanos ou montar numa bicicleta para encontrar a grande experiência do viajar. É deixar que a viagem te leve, apenas.
Viajar abre a oportunidade de se experimentarem novas sensações, novas perspectivas para o olhar, novas situações. E elas estão em toda a parte – no Louvre, no Guggenheim, na Torre Eiffel. Nada contra os clássicos, quero um dia conhecer, mas parece que vem sendo diluído o que se pode extrair, o que se pode viver numa viagem.
Viajar enaltece suas virtudes e põe à prova suas deficiências. Reativa o olhar de curiosidade e da descoberta, da percepção. Exercita o espírito e o raciocínio, que o cotidiano acaba atrofiando. Viagens são parte da natureza humana, nossa origem é nômade. Somos bípedes andarilhos. Será por isso que gostamos tanto de viajar? Uma memória genética, uma herança cultural? Sei lá, vai saber…
Às viagens devemos o intercâmbio cultural que permitiu a troca de especiarias, costumes, descobertas e genes. Viagens ampliam o nosso conhecimento, o nosso entendimento, os horizontes. Em uma viagem, encontramos o continente americano, em outra, fomos à lua. Viajamos para andar, viajamos para descansar, para amar, para esquecer. Viajamos para ganhar dinheiro, viajamos para gastá-lo. Viajamos para encontrar, viajamos para reencontrar.”

“É um processo diário de ajuste a novas situações. O conforto é uma coisa boa, mas não deve se transformar em uma amarra, um grilhão. Incrível o poder de adaptação do ser humano; estamos sempre nos adequando às mudanças, de lugar, de parceiro, de trabalho, de vida. Somos camaleões sociais.”

“Estava terminada a viagem. Se alguém me perguntasse se valeu a pena, teria a resposta na ponta da língua, pois é só quando se chega ao fim que a gente percebe o quanto foi importante, o quanto foi enriquecedor, o quanto foi divertido. Agora eu tinha algo que ninguém poderia tirar, a experiência. Valeu a paciência de saber esperar passar o mau tempo e não desistir. A tolerância e a importância de ouvir e observar. Valeu pela boa vontade. Valeu pela alma aberta! Valeu por ter experimentado. Valeu por ter feito.”

“Reafirmo minha crença no viajar como um grande instrumento, uma ferramenta para conhecermos melhor não só lugares, mas também nossa história e nós mesmos. Viagens não precisam ser longas ou distantes. Viagens são viagens. Desalojar-se, espanar a poeira do pensamento, se colocar em outros ambientes, aguçar os sentidos, deseducar os hábitos e vícios, descobrir e redescobrir.
Hoje percebo que, mais do que parte da minha vida, as viagens são o motor.”

#dandoumalida

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