“Livre”

Livre (Cheryl Strayed)

O que me interessou neste livro, com capa de autoajuda (“Uma história de superação”) foi apenas seu tema: uma viagem no estilo mochileira que se tornou tão famosa a ponto de virar filme neste ano, com Reese Witherspoon no papel principal. Iniciei a leitura por curiosidade, mas pronta para largar o livro no primeiro capítulo, caso ele se mostrasse uma história mal construída.

No entanto, best sellers podem sim esconder um conteúdo maravilhoso, com uma trama bem articulada e enredo cativante. Assim que iniciei a leitura de “Livre”, me senti presa à história, que vai muito além da descrição da longa caminhada pela Pacific Crest Trail.

A autora, antes de nos apresentar sua jornada, explica os motivos que a levaram a caminhar por três meses sozinha ao longo de florestas, campos, neve, desertos. A análise madura que faz de sua própria vida, focando o vazio que causou a perda de sua mãe, é comovente.

Suas dificuldades imensas ao longo da trilha (uma mochila que mal consegue colocar nas costas, pés destruídos, ursos e cascavéis no meio do caminho, um potencial estuprador) nos mostram sim o quanto as dificuldades podem ser superadas – no entanto, sem nunca cair no tom piegas. É uma narrativa tão intensa que não necessita de superficialidades para se tornar um sucesso de público.

Você pode procurar pela postagem do Filme que fizemos no #cin&mochila aqui do #dandoumpulo e sobre as músicas e trilha sonora no #goodvibrations

Trechos:

(…) e olhei para a mochila. Parecia ao mesmo tempo enorme, compacta, quase adorável e assustadoramente independente. Ela tinha uma característica animadora; em sua companhia eu não me sentia totalmente sozinha.

Estava pensando apenas em me movimentar para a frente. Minha mente era um vaso de cristal que continha um único desejo. Meu corpo era o seu oposto: uma bolsa de vidros quebrados.

Precisei de todas as minhas forças para percorrer 14 quilômetros por dia. Percorrer 14 quilômetros por dia era uma conquista física bem além de qualquer coisa que já fiz na vida. Cada parte do meu corpo doía. A não ser meu coração.

Estava pensando apenas em me movimentar para a frente. Minha mente era um vaso de cristal que continha um único desejo. Meu corpo era o seu oposto: uma bolsa de vidros quebrados.

Sou o tipo de espírito livre que nunca teve coragem de se libertar.

Minha mochila pesada passou a ser quase uma companheira de verdade (…). Minha intenção foi a melhor possível. Estava impressionada com o fato de que o que eu precisava para sobreviver pudesse ser carregado nas minhas costas. E o mais surpreendente de tudo, que eu pudesse carregá-la. Que eu pudesse suportar o insuportável. A compreensão da minha vida física e material, como não poderia deixar de ser, estendeu-se para o âmbito emocional e espiritual. Era surpreendente que a minha vida complicada pudesse ser tão simples.

Viver livremente desse modo sem um teto sobre a minha cabeça, fez com que o mundo me parecesse ao mesmo tempo maior e menor. Até então não tinha realmente entendido a vastidão do mundo – não tinha sequer entendido como 1 quilômetro podia ser tão vasto, até que cada quilômetro fosse observado em velocidade de caminhada.

Havia tantas outras coisas impressionantes neste mundo. Elas se abriram dentro de mim como um rio. Como se eu não soubesse que podia respirar e então respirasse.

Não é possível saber o que leva uma coisa a acontecer e outra não. O que leva a quê. O que destrói o quê. O que leva o que a florescer ou a morrer ou a mudar de rumo.

Obrigada, pensei mais uma vez, e mais uma vez. Obrigada. Não apenas pela longa caminhada, mas por tudo o que pude sentir finalmente se juntando dentro de mim; por tudo o que a trilha me ensinou e por tudo que eu nem sabia ainda, embora soubesse que de alguma forma já estava dentro de mi (…). Era tudo desconhecido para mim na época, quando eu sentava naquele banco no dia em que terminei a caminhada. Tudo exceto o fato que eu não precisava saber. De que era suficiente confiar que o que eu tinha feito foi verdadeiro (…). Era a minha vida, como todas as vidas, misteriosa, irrevogável e sagrada. Tão perto, tão presente, tão minha. O quanto me senti livre deixando que ela seguisse seu rumo.

#dandoumalida

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